Como um porco na hora do abate, inspirado

portanto, ao dejetar suor, lágrimas, escarro, gorfo, vômito, víceras e escrementos, por favor, entenda...

6 de novembro de 2009

61. Razão

No fim das contas, mulher acadêmica 
Sempre se diz certa
Sempre se disserta


Ps - em parceiria com Casal

60. Sessenta

Cê senta?

59. A quem?

P'ro seu sorriso
P'ro seu só risos
Procê o sorriso

4 de novembro de 2009

58. O onírico som da GG






Estranho pensar que é tudo motor de Fusca buzinando ao pé do ouvido, ensurdecendo timpanos, desabrochando delírios, ansiando a impaciência que corre com o olhar anômico as horas. Qualquer barulhinho, qualquer ruído, qualquer guinada. Imagens, imagens, imagens. Quanta lombeira, quanta fome, quanto colírio, quanto daltonismo, quanta gargalhada, quanta Smoking. Satisfação quanta, antiga, recíproca. E um tesão cavalar no registro da saudade, quando iludo-me com o alarido da rua pensando o cantarolar da GG. Estranho pensar que o tempo passa, mas pra mim pára sem chegar à hora. E é o ócio imaginativo, a acústica da figura, a ideação, que me apossa e me rememora. É cachorro-marreco, é lesma acorrentada, é pára-brisa rodopiante, é flanelinha maconheiro, é o amigo homicida. Mil ondas, vibrações mil, reservadas há muito e em erupção. Estranho como de carro vai à máquina. Vira A. Vira GG. O ebulir quando sobe a 28, faz baliza, fecha os olhos, se resguarda com o enrolar das transparências e aguarda, silenciosamente e no sereno, até à madruga, a arquiteta que a guiará etilicamente no retorno da Casa Torta.

29 de outubro de 2009

57. Telefônica

Te ligo, moça
Assim que eu pegar o cometa
Assim que eu partir da lua
Assim que eu roubar Saturno
Assim que eu voltar à Terra
Te ligo, moça
Assim que eu erigir a casa
Assim que eu comprar a terra
Assim que eu vencer a guerra
Assim que contigo eu casa
Te ligo, moça
Assim que cair a ficha
Assim que em dois formos brasa
Assim que você não resista
Assim que eu fizer-te ligada
Em sua liga que me liga, moça
Tornando-te, à distância, a mim ligada

25 de outubro de 2009

56. Diploma

PHD em THC.

13 de outubro de 2009

55. Gabi

Gabi aqui, Gabi acolá
Em minha cabeça
Gabi à rodar
Num acolá Gabi
Num eu daqui e ela de lá
Querendo Gabi
Que me quer ali
Me quer aqui
Me querendo lá
Num lá e cá dela colar
E eu daqui e Gabi de lá

7 de outubro de 2009

54. Vivi

Poesia vou te fazer, Vivi
Com sol, com frevo, com suor
Pum fevereiro do por vir
Vivi, com cerva gelada
Geladeira lotada, refri
Com suruma, com larica
Com palavras e lambidas
Carta formal à embaixada
Lacrada, menina recatada
Que é pra ninguém ler
Que é pra ninguém saber
Que em terras brasilis 
Seu exílio é comigo
Subversivo, o é aqui

1 de setembro de 2009

53. Suruma

Não importa se é sativa, manga-rosa, soltinha
Em difuso horário de pico bom baiano se pica

6 de maio de 2009

52. Dupla

Ânimo, sou só
Sou só, animo
Animo, sou só
Sou só ânimo

Ps - em parceria com Karina Nicácio

5 de maio de 2009

5I. Cinco de maio (Quês de Thiago)

Que, de tão alvo, nasceu roxo, morto, chocho, quase carvão e, num infortúnio do acaso, reviveu: branco, róseo, gorducho, lourinho. Que cresceu e se desfigurou numa pomba suja, obesa, um rato voador apto à espalhar doenças (um anjo de luz torta, abobada negra, reizinho estúpido de seu próprio umbigo). Que não estuda, que se pensa malandro, que não tem onde cair morto. Que é mais indiferente que uma porta, mas alardeia como tropa. Que tem mal hálito, dentes podres e ainda não sabe a importância de se escovar os dentes. Que tem mal gosto, é insensível. Uma brita que se tornou rocha – sem graça, fria e opaca. Que traz desgosto, dissabor. Que hoje é maior de idade, têm idéias extremamente infanto-juvenis e uma minúscula habilidade de negociação (trocaria sua mãe por um vídeo-game, por uma bicicleta, por uma pedrinha de crack, por nada). Que declama, dia após dia, em alta e límpida voz, nossa tragédia. Que de lirismo só herdou Vinícius como nome composto e o cego destino grego como desfecho. Que nunca compreendeu, analfabetismo funcional, o fato de cada dia trazer suas próprias aflições - para todos. Que, pelo andar do andor de barro, será órfão e não terá amigos quando se chamar "saudade". Que não passará dos vinte. Sepultado pelo acaso, enterrado pelos mortos, sem lápide, para ninguém fará falta e que assim seja, amém.

28 de abril de 2009

50. Entrega

Te aceito assim, assada
Cansada, suada, cheirada
Dançada, no dengo, colada
Embalada, nua, calada
Pele com pele, crua alvorada
Amanhecida, em mim embebida
Assim, assado, aceita

19 de abril de 2009

49. Partida

Vai lá, vôa lá, voilà...
E lá vais, lá, um vão de vaias.

3 de abril de 2009

48. Compromisso

É a festa, mulher, minha namorada contínua e, libertinamente, divido-a com todos.

2 de abril de 2009

47. A chegada do circo

E era assim que vez ou outra aquela mulher na casa dos 30, independente, de bom gosto, livre de moralismos, liberal, alva, tendo por contraste os ramos negros de chuchu espalhados pela cabeça, se deparava com o inesperado esperado: a chegada do circo. Morava, é certo, há dezenas de quilômetros da cidade onde se dava o feito, mas, quando lhe vinham as lembranças, não hesitava em botar os pés na estrada rumo ao evento. Já sabia, de cor e salteado, todos os números. Odiava os com animais e não sentia apreço pelos da Mulher Barbada. Ia, é certo, para se deliciar com os do Mágico. Imaginava aquelas mãos macias, com dedos alongados e morenos, penetrando a aveludada caixinha da ilusão. E em sua cabeça era como se aquele jovem artista, na casa dos 20, desencadeasse nela uma explosão de sentidos. As pernas tremiam, os olhos virava. Se molhava todinha. De alegria soluçava quando o circo chegava nela e quando ela ao circo chegava.

31 de março de 2009

46. Memórias da chuva

Dar-te-ei um beijo, em teu queixo, molhado, esquentando a chuva, raiando sol sereno, secando o mar bravio - pra que não descompasses o nado, pra que não percas o passo, pra que não morras na praia, pra que não troques os fatos, pra que não arruines a pose, pra que não mudes os rastros, pra que continues morena, pra que não a roam os ratos.

25 de março de 2009

45. Dois sentidos

Na proporção em que nada sentias senti. Nas tuas as minhas palavras sentidas. E outrora as que nada sentias sentias.

22 de março de 2009

44. Moleton

Instiga a forma crua, sem moldes, que, num movimento sutil qualquer, emerge à retina e bagunça a libido.

31 de janeiro de 2009

43. Anônimos falares

Seis minutos! Exatos 360 segundos. Perturbadora meia dúzia de minutos. Relativamente atrasado, caso o encontro às 20h15 não se tornasse um passeio soturno individual. Só. 20h21 e é a moça da recepção, o sorriso da moça da meia-entrada, o motivo da leveza em minha melancolia: entre cinco cigarros e 600ml de Brahma, consumidos em cerca de 30 minutos, e muitos tremores nas mãos, tempo suficiente para descer cerca de metade de uma quadra e retornar ao galpão da companhia teatral Odeon. Eu, 13 pessoas (que se multiplicariam em 60) e ela, o cabelo curto e cheio dela, o nariz exótico dela, o vestido “tomara que caia” talvez rosa dela, a pele queimada combinando com o traje dela, o olhar reluzente dela, o sorriso largo dela, o meu sorriso em retribuição ao dela. De coadjuvante a protagonista em minha percepção da peça Fala comigo como a chuva, da Companhia Teatro Adulto (adaptação do romance Talk to me like the rain and let me listen, de Tennessee Williams).

Na mini-meia-arena, três fileiras centrais, cheias. Nas laterais, uma defronte a outra, seis sujeitos numa e noutra duas mulheres, eu e, na bancada abaixo, a moça. Ao som de trilha francesa, dramática, o frisson provocado pela beleza obscura de Samira Ávila, intérprete - branca, magra, esguia, de seios quase medianos, olhar fundo, nariz afilado e longo, compridos cabelos negros, lisos e com franja – de Poliana, Brisa, Luíza ou qualquer que seja a personificação do desespero feminino. Garrafas acumuladas ao pé do televisor, ao lado de duas camas vazias, num quarto gélido. Noites em claro, entre garrafadas de água, imersa num tédio tamanho. Esse, impossível de ser quebrado, nem mesmo pelas simulações de luta marcial (chutes, socos e histéricos gritos, que não despertaram o mesmo efeito que a gargalhada unívoca e natural da recepcionista) do homem de trinta e poucos anos, bêbado, que acabara de chegar declamando sua madrugada na orgia. Ele, o desespero existencial masculino. A dureza de mais um dia por vir. A luz, chapada, arrombando a retina, em mais uma assustadora manhã que raia para o casal, que há muito já são dois. Sós.

É sobre o drama existencial humano que versa Fala comigo. Sobre o sofrimento que, embora tamanho, é sempre submisso à escolha individual (mesmo quando não vemos saídas ainda podemos escolher o suicídio, diria Peter Berger). É sobre aquela chuva fina que, no movimento dos corpos, em dia frio e cinza, só serve ao cortante incômodo. É sobre o amor bruto, cachorro. É sobre forma e conteúdo, significado e significante, tatuagem, literatura, Gustav Klimt. É sobre gente, demasiado humano, que ainda sim pode e acha plausível dizer sim a um pedido amistoso de dança com o inimigo em meio à guerra declarada. É sobre gente com brio, que sabe dizer não e que vê na fuga a chance humana de uma nova vida – mesmo que uma na qual o anseio maior seja o envelhecimento sem perceber-se, sem espelho, sem o conteste do outro, sem a linguagem do tempo.

Não conhecia, absolutamente, nada da franco-sensualidade musical de Yann Tiersen, Carla Bruni, Mireille Mathieu ou Claude Dubois. Pouco conhecia da crueza do poeta estadunidense Walt Whitman ou da melancolia de Tennessee Williams. Eu não conhecia os riscos, a subjetividade, a geometria, o cumprimento de Klimt, muito menos sua extensão reproduzida, fragmentada, no tecido do braço esquerdo de Ávila. Tampouco a leveza da minha recepcionista-protagonista (idade, crenças, preferências, sonhos, nada, nem mesmo função e nome, ausentes na ficha técnica da dramaturgia). Mas foi seu olhar, tal qual a fuga daquela louca, agora Caroline Turner, para um local ermo e à vomitar em literatos mortos, o estanque daquilo que, em mim, também, tudo destrói: o tempo. “De outro anônimo, obrigado, anônima. Deu-me força para, como tantas Polianas, Brisas e Luízas, recomeçar do zero”, era o que eu pensava, enquanto, na porta do galpão, observando a saída de felizes casais, projetava uma nova caminhada, de quinze minutos, mais cinco cigarros, pr'um novo bar.

Fonte - http://falacomigodocecomoachuva.blogspot.com/2009/01/ele-e-um-rapaz-que-escreve-super-bem-e.html

17 de dezembro de 2008

42. Fôlego (ou Suspiros de Maria)

Sorrateiramente, arromba a porta sem fazer alarde. Traduz tal universo sensitivo com a inexplicável expressão “te amo”. Amarra, sufoca, traz à tona um impiedoso desejo de dependente liberdade vigiada. Com tantas mentiras sinceras cospe-me à cara, morde-me com carinho, passa o café, acaricia o meu rosto, faz planos para o nada futuro sôfrego. Um, dois, Ana e João, casal de filhos, casa na praia, filmes de arte, cinco trepadas diárias, literatura, romance escrito de quatro, teatro. Dorme, trabalha, estuda, passeia, conhece lugares, descobre pessoas, acorda, desgosta, esquece, queima cartas, sopra as cinzas, fecha a mão direita, por medo de cortar o pulso, e mergulha-a no vermelho tinto, observa do que é feito um coração, desperta para a vida. Assim, num fôlego, perto demais era tal eufemismo para os tão frouxos amarrados que fomos nós.

14 de dezembro de 2008

4I. Acaso

No caso destes olhos perdidos, numa despedida em dia cinza, lábio noutro se encontrar, eu, ao contemplar inquietante sorriso, no acaso disso tudo, então feliz, como manhã de sol, me desencontro em você.

20 de novembro de 2008

40. Liberdade

Liberdade, expressão mais preta do Brasil
Liberdade, expressão mais amarela do Brasil
Multicolor e universal aspiração, Liberdade

18 de novembro de 2008

38.

o fatocomeu

39. Titilo

fato não pode ver matoquequercomergato

15 de novembro de 2008

37. Busca-vida

Sem poemas, nem prosódias
Vim, na cadência ao descompasso
Com metáfora de cem métricas
Erigir minha ciudad letrada

Sem lirismo, quiçá propostas
Vim, porque já me doía a vida
Como armada, ponteira, pisão
Em tal turva e só capoeira

Sem poemas, sem apostas
Sem perguntas ou respostas
Como se vai o que nada tem a perder
Fui, voltei e, ainda, cá estamos

Sem poemas ou novos projetos
Com sorrisos e um raro afeto
Sedentos da curva de um beijo aberto
Ambos, cedendo à permanência do passado

5 de novembro de 2008

36. Progresso

Eu, hiato
Ele, iate

18 de outubro de 2008

35. Espontaneidade

Tem que vir à tona
Como primavera em refugo
Como sol em crepúsculo
Como luar em absurdo
Como fogo em desuso
Como Hiroshima em refluxo
Como quimeras de demiurgo
Como todo nada e o nada tudo
Vento em subterfúgio
Tempo em solstício
Vômito em regurgito
Tem que vir, atoa

5 de outubro de 2008

34. Curriculum

Eu lato
Tu lattes
Ele late

3 de outubro de 2008

33. Gosto à Brisa

Gosto mesmo é de sorriso
Em gerúndio
, infinitivo.

1 de setembro de 2008

32. De Certeau

Eu dissertei
Michel de Certeau
Nós dissertamos

3I. Ego

iDIOS!
SOY YO

14 de agosto de 2008

30. Decrescentes acentuadas doenças

Tricotilomaníaco
Tricotilófago
Sonâmbulo

Míope
Daltônico
Astigmático
Agnóstico
Alérgico

t
l
e
t
i
c
a
n
o

12 de agosto de 2008

29. Ao Japão, meu improviso

Miragem rasgada
Fios negros, escorridos
Alva pele, magenta
Nos lábios, alarido
De um ocidente por nome
E n'outro acaso Japão
Atravessando meu ego
Meu oco, meu ão
Que brinca, atiça
Me vertigineia
Causa medos, delírios
Sonhos, tonturas
Me lambe, me cospe
Propõe travessuras
E provoca, e embaraça
Tal abismo: Kimura




2 de agosto de 2008

28. Olinda

Se cobrir, vira circo
Se cercar, vira hospício

11 de julho de 2008

27. Sobre Chagas

Pau, torto, de fumo, boêmio, crioulo, abastado, mesquinho, que ao mundo me pôs, me expôs, como carne de sua própria carne e miscigenado sangue do seu próprio álcool, duma sacanagem, uma foda, que ninguém pediu ou agradeceu por ser lançado à merda. Puro escárnio, trajando similaridades físicas, disparidades estéticas - pregas vocais, sonoridades nasais, grossos lábios, enunciando afinadamente, aos pares, o quão familiar ressoa o cantar e o mentir. Que à justiça dos homens revelou-se tão hipócrita, sentimental, sensível, gélido.

Mais velho, tragando fumo e cana guela abaixo, trago, à pele, peça de um acaso tragicômico, múltiplos sinais, dia-a-dia, como os seus e, num confuso sentimento de ódio e estranhamento, Chagas como nome último. Levá-los-ei, inevitavelmente, até o dia do nada, como o nada tão expressivo desse tão díspar e tão análogo o é a mim. Queria Lima. Me agrada Barcelos. O outro eu renego, mesmo que possua, embora, se tiro o agá e acrescento um cifrão, linguisticamente convive mudo e sujeito ao meu simbólico desprezo.

26 de março de 2008

26. Cronologia

Láimbaixo, à direita, do meu lado ocidental
Entre nuvens de concreto e prédios de algodão
Surge bela, emergente, rajante gema fugidia

D'um cinza p'rum crepúsculo, amarelo n'olho piscar
Jaz acima, soberana, de todo branca, pescoço à torcer
Pára tempo, para a vida, pára minha cronologia

19 de fevereiro de 2008

25. Despeça-se

Despeça-se e torno solidão de ilha
Gota-a-gota, feitio de lágrimas
Colosso desterro em meio ao mar
Submersa, dispersa, afundada em mim

Despeça-se e torno a me tornar eu
Lírico destilado, ébrio metaforizado
Condensado vapor barato, líquido
Sólido e frio, gelo chamado solidão

3 de dezembro de 2007

24. Café e cigarros

Enquanto, entre café e cigarros, tragava o tédio na esperança de que o gatinho malhado, num vacilo qualquer da natureza, escorregasse e espatifasse no térreo ou os vizinhos deixassem a cordialidade de lado e esfaqueassem-se. Enquanto, da janela do terceiro andar do velho Abaeté, almejava que qualquer coisa viesse romper com o gritante silêncio da existência e, do melhor ângulo, eu pudesse contemplar, com sorrisos, a ruína do mundo, você me liga, sempre precisa e perfeita, falando-me de saudade e um tal desejo de ouvir minha voz.

24 de novembro de 2007

23. A casa de Emília

Casa comigo, casa
No acaso do sol à se pôr
No longo exílio ou em casa
Neste Porto desta Barra
Sem descaso, casa
Te dou Brahma e batata frita
Amor, vela, fogo e brasa
Me torno seu entre, então
Sincretismo de guitarra, voz e acordeon
Penetrando tal olhar musgo-verde
Num blues à azulejar tal solidão
Na meca, igreja ou candomblé de terreiro
Uma ponte para o seu desfilar, seu saveiro
De Salvador, no nordeste, a BH ou Bangladesh
Diversão gratuita e um pouco de chão
Num sítio ermo, no desterro
Casa, comida e café fresco
Uma vida pintada à quatro mãos
Na espera da singela minguante lua magrela
Lindo ocaso, vermelho-amarelo, sob os ecos do ão
Se casa Emília comigo, casa
Casa, pão de queijo e goiabada cascão
Se casa Emília comigo, asas
Como um bocejo, sem a menor pretensão
Num céu dado, em aquarelas e livre-criação
Comida, estrelas e versos num papel de pão
Numa entrega, de repente, em embolada tradução
Com banheiro, cozinha, quarto e sala-de-recepção
E uma banda de jazz na tela de tal improvisação
Na sacada onírica do som, luz, câmera e ação
Na sempre mesma casa, colorida pelos olhos de Emília

19 de novembro de 2007

22. Boneca do Candeal

Solte os cabelos, branquinha, este bicho feroz, enrolado, a esconder mil mistérios. Fite-me com tais olhos, boneca, verdeje minh’alma em sequidão. Dê bandeira, branquinha, prenda-me na barra deste Candeal. Amoleça o quadril, boneca, leve-se pelo gosto labial do meu eco, meu oco, meu ão. Boneca clara em terra escura, com sardas, doçuras, sorrisos e macias mãos. Venha, de carroça, com prontidão, flor nordestina, embebida cajuína, com seu torpor, alumiar minhas mini-certezas, clarear minha turva condição.

19 de outubro de 2007

2I. No reflexo das águas

Cubículo fétido, imundo, repleto de pentelhos embrenhados com pêlos de animais no ralo. Ainda não vi ratos, mas sei que estão procriando logo abaixo dos meus pés. Saio mais sujo e tenso, quando na verdade queria me higienizar. Percebo, ao me secar, que cabelo e barba nunca estiveram tão longos e desleixados ao longo do ano. O vizinho toca maestralmente, num piano, Noel Rosa. Algo na luz do dia anterior havia mexido comigo. A velha desdentada, nipônica, que passa eternidades da vida trocando freneticamente os canais da tv e beijando os bichanos-comedores-de-baratas, havia saído com a filha – uma balzaquiana mimada; branca, de cabelos crespos alisados e olhos semi-puxados, produto da mistura entre pai baiano e mãe japonesa; flácida, desbundada, seios pequenos e caídos, barriguda, embora não chegue a ser obesa; a ignorância em pessoa, completamente desinteressante. Casa livre, abro a porta do projeto de banheiro desejando respirar menos dejetos. A vontade que eu tenho é de prensar lentamente a pesada porta de madeira contra o pescoço desse gatinho branco enxerido. Faria isso com o animalzinho porque, além de dar escape a minha pulsão de agressividade - que se encontra no limite -, sou um bunda mole e não teria coragem de matar aquela vadia corcunda. Às vezes, come toda a salada do almoço deixando, descaradamente, algumas sementes na vasilha e, noutras, esconde seu laptop para que eu não navegue para outro mundo deixando o dinheiro da espelunca em débito. A imaginação escorre sangue. Me masturbo na pia. Mas a minha velha escova de dentes está bem guardada, isolada num protetor dentro do meu quarto. O que você não sabe e nem ao menos sonha, sua mestiça vagabunda, é que, sempre ao iniciar tal ritual, eu vejo a sua, rosinha, novinha, solta num copinho de plástico seco próximo ao espelho. Meu gozo é depois do gozo, querida, quando, atrás, no reflexo das águas, eu contemplo meu cruel sorriso enquanto tiro tal objeto do bojo nojento e o coloco, molhado, em seu local de origem. Nesta história, pouco importa quem rirá por último. Eu saberei fazê-lo mostrando os dentes, meu bem. Já você, talvez, não.

7 de outubro de 2007

20. Tu mais eu

Há dias que o dia insiste me eclipsar
Me fita, me cega, não deixa surgir amanhecer
E é tão singelo, na escuridão, tocar teus seios nus
E sentir a forma morena, arrepiada, exalando jasmim

Há dias que a noite insiste me amanhecer
Mas, preso aos teus olhos, abraço a lua, não deixo raiar o sol
E é tão sutil o teu gosto ressoando em meus ouvidos
E este cheiro de voz lingual azulejando meu verde pensar

Dias que me vejo tu. Noites que me sinto nó
São dias estas noites. Dias que me vejo teu

Mas é tão duro, pela luz de um olhar ateu, beijar teus lábios crus
Como flor murcha, no desencantar, espalhando mal me quer
Curioso, como uma estrela se assustando à própria explosão
Espantoso, tanto quanto quando tu mais eu não formamos nós

Dias que me vejo eu. Noites que me sinto pó
São noites estes dias. Dias que me tenho dó

1 de outubro de 2007

I9. Marco y Alicia

Roça língua muda
Em meu lábio o queixo teu
Narciso olhar devorado
Entre cinzas, fumaçal
Subindo, como serpente,
A enrolarmo-nos tal destino cego
Em nucas ouriçadas, pintadas
Unhas em miscelânea de tons
Pouco-a-pouco a formar-se tal
Tela de um quadro em nós
Neste querer ter cru, humano,
Do nosso Almodóvar espasmar
Dias que o meu coração palpita gritos em formas de pensamentos teus
Dias que o teu ouvido sem deus rumina suspiros de desejos meus

15 de setembro de 2007

I8. Avoada

Balança, menina, balança
No horizonte da janela que te prende no quarto
Balança, menina, e, se cai,
Levanta, pois existe azul depois do chumbo
Balança, menina, balança
Nesta ponte, da cabeça, que te leva ao mundo
Balança, menina, e, se cai,
Levanta, depois do chumbo ainda existe azul

11 de setembro de 2007

I7. Arranha-suelos wtc

Minha constância é dor
Aquilo que me entorpece de alegria
Seu sentimento é ruína
Espelhado em vitrines coloridas

Seu paraíso (público) sou eu
Um shopping à céu aberto
Meu inferno (privado) é você
Incertas certezas construídas pra mim

Ps - um mês de Bahia e seis anos de Bin Laden.

10 de setembro de 2007

I6. Arranha-cielos wtc

O triste cinza tom da morte
Espelhado em vitrines coloridas
De arranha-céus e solidão
Um shopping a aberto céu
Feito de incertas certezas
Construídas para você

31 de agosto de 2007

I5. Ritual

Todo dia e a rotina torna-se ritual. O Velho, abestalhado, quebra a casca ovular e a gema escorre, alaranja brilhante, do céu. De tão lenta, parece estagnar o tempo. Espio tudo, manchando os cotovelos na cal do pára-peito. Abaixo de mim, entre areia e escadaria, tudo alvo, loiro e esquisito a mover-se é alvo de galoardas aquáticas nos pés em troca de algumas moedas. Os gringos emputecem-se, desejam mais é ficar com a sensação de maresia pelo corpo até chegarem em suas casas. Mas o negão brinca com tudo, enquanto sua barriga cobre o pênis e a fresta anal sorri, do cu ao cóccix, para a Sete de Setembro. Os barcos, estagnados no vai-e-vem do mar, parecem flutuar sobre um espelho azul que, vez ou outra, reflete a gema – sempre mais molenga, lerda, deslizante, como miragem, dias a esconder-se por detrás de uma nuvem passageira, dias a colidir-se nas cabeças da ilha de Itaparica. Limpo os cotovelos brancos, enquanto o Velho delira decretar escuridão a parte do mundo e o Prefeito luz artificial para a justificação dos poderes delegados nas eleições supostamente democráticas. A japonesa desdentada prossegue trocando os canais da tv e beijando seus gatos nojentos que, na noite anterior, se divertiam comendo as baratinhas da casa. A filha se masturba no banheiro, após esconder seu laptop para que eu não navegasse pra outro mundo deixando o aluguel da espelunca em débito. Pólvora, bucha, explosão. Todo dia é dia da rotina tornar-se mítica, mística, ritual.

20 de agosto de 2007

I4. Cadência ao descom(passo)

Palácio, passárgada
Mansão, casabandonada
De ladeiras em asfalto
E praias enchuvaradas
Vivo em descom(passo)
Na cadência das cinzas de agosto
Na Bahia que não minha
De igrejas, santos e terreiros
Em trêmulas notas de um pandeiro
Do triste berimbau a batucar
Um vai-e-vem de morena pensar
Só, acompanhado ao sabor do acaso

15 de agosto de 2007

I3. Penso no que as vezes penso que penso

As vezes penso que vou me matar,
que o mundo ta mal etecetera e tal
As vezes penso que estou em Berlim,
que não ta ruim, meu senhor do Bonfim
As vezes penso que meu coração
quer escapulir pra dentro de ti
As vezes penso que se vomitar
pra aliviar o estomago ruim

So tenho a plena certeza
que, como aquele ser disforme,
sou tambem este nada imerso em mim

FIM.

Ps - Salvador, Bahia. Na casa de umas japas, postando num notebook com teclado maluco.

27 de julho de 2007

I2. Urgência

Era penumbra, era terra, era escuridão.
Tragava todas as sensações do mundo em mim,
Fumando um universo por vez.
Nada era como aquele ópio-lento-brusco beijo,
Embebido de sensações inebriantes.
Penetrante olhar cegava-me em faíscas.
Doce sorriso seduzia-me como cachaça.
Em tudo ela era tudo,
Numa urgência louca de senti-la outra vez.

24 de julho de 2007

II. Pudor - sentimento de pejo e decência; honestidade.

Gota-a-gota, salgada e cristalina, de amargura e arrependimento se turvava minha psiqué. Por uma questão de (des)pudor, moral e/ou covardia eu o permitia tocar desavergonhadamente meu nariz, minha boca, o biquinho do seio e o que mais quisesse. Jamais imaginaria que aquele homem alvo, de olhos verdes, cabelos sedosos e negros, na faixa dos 30, com o qual namorei virtualmente por dois meses, me mandava emoticons tão calorosos com a única coisa que restava de sua semi-extensão braçal: um protótipo de indicador. Vomitei, me arrependi. Um brinde a internet.

21 de julho de 2007

I0. Encontro


Este encontro do meu com o outro tão especial você
Provocando entranhas estremecidas, em febris desencontros 
Num por vir sutil de pontes, misturando passado em presentes futuros 
Do seu para o meu olhar, contemplando cores jamais vistas 
Desembocando dragões estomacais, gerando desejos 
Nos quais as pueris nuances da existência tornam-se nada 
Neste encontro do meu com o outro tão especial você

17 de julho de 2007

09. Grito mudo

A vida tem berrado
um grito que,

Passo na onda da vida, que leva meu rumo pro incerto.
de tão forte,
chega a emudecer-me.



27 de junho de 2007

08. Nós

- Mas, o que tem amanhã? - Pergunta a morena, de lindo sorriso e perdido olhar.
- Tem eu, tem você. Pra que mais, se somos nós? - Responde o rapaz, olhos nos olhos, perdidamente encontrado.

11 de abril de 2007

07. Lírico improviso

Eternidades sonhadas. O tempo parecia condensar dias em horas - sentíamos tudo como em segundos. Lá fora, fora do mundo onde estávamos, parecia carnaval. Toda aquela agitação, mesas verdes ou amarelas, sorrisos constantes, filas quilométricas pro alívio biológico, cerveja, pessoas, euforia, Ben Jor. Mesas verdes, talvez amarelas – ou alguma cor que eu não sabia o nome, mas que parecia estar entre as duas. Talvez verde, limão.

Onde estávamos era uma intensa calmaria de destruir qualquer quarteirão, qualquer França, Espanha, Brasil ou Japão. Na esquina, no escuro, no caos da serenidade que nos encontrávamos, corpo no corpo, boca na boca, língua na língua, dente com dente, cabelos e a falta, suor, calor e uma suave mão, que explorava as cavidades mais abissais do gozo.

Beijo, gostoso, demorado, lento com alguns raros movimentos, brusco. Buscando língua, saliva e mordidas, com tesão, com mãos, pureza em sutis safadezas, com verdade, com malandragem, com gente que gosta de gente. Eu, ela. O meio era beijo, nem lá nem cá – tudo era motivo de travessia.

1 de março de 2007

06. A fábula do velho que cultivava formigueiros

A multidão se concentra, um esmagamento coletivo. É um barulho infernal. No formigueiro maior elas lutam entre si. O cheiro não é dos melhores, mas elas se amontoam umas por cima das outras. Forçam-se as cansadas vistas e lá vai uma pequena parte pra dentro de um formigueiro menor, de cor vermelha. Por um segundo fez-se um silêncio sepulcral, quebrado pelo novo corre-corre de cerca de 20 delas de encontro a um formigueiro verde. Um minuto depois, 25 delas se matam para entrarem num formigueiro azul.
O velho homem observa tudo calado, com sua lupa. Ele tem acesso a todos os cantos do universo - dos abismos mais profundos aos arranha-céus mais altos. Sentado confortavelmente no seu sofá, ele permanece inerte em relação a todas as desgraças que acontecem no reino animal. Está num lugar favorável e sua contemplação é sádica. Aliás, aquilo tudo era o que ele convencionou chamar de trabalho. O velho afirmava que aquilo dignificava o homem. E foi assim, durante os seis primeiros dias, que o velho usou de diversos experimentos em suas cobaias.
“Cientistas conseguiram produzir agressividade em laboratório e começam agora a analisar sua origem genética” - manchete do jornal do dia. Ele lê tudo e se orgulha do feito, suor das próprias mãos. O trabalho realmente dignifica o homem, pensava. Observou pela última vez sua criação e julgou ser tudo aquilo muito belo e agradável. Era o sétimo dia, o dia do ócio. O velho se transforma e descansa.
Acordo assustado e confuso. Tudo vertigem, alucinação, delírio, sonho: aquilo não são formigas, são homens que após serem explorados por 12 horas estão voltando pras suas casas, num ônibus extremamente lotado. O homem, que observa confortavelmente tudo e não faz absolutamente nada, não é homem e sim a serpente - o diabo - no paraíso. A loucura cotidiana me pregava mais uma peça.
Tinha a absoluta consciência que estava sendo privado de fruir dos prazeres da vida, sendo obrigado a sobreviver. A batalha de todos os dias, para a maioria das pessoas - supostamente humanas - era coordenada pelo sonho de consumo propagado pela publicidade. “O diabo é o ócio de deus a cada sete dias”, dizia o babado livro que empunhava intitulado “O Anticristo”, de Nietzsche. Chegava ao meu destino, minha casa. Precisava descansar e esperar que o acaso me concedesse dias melhores, longe daqueles apertados formigueiros.

11 de fevereiro de 2007

05. A morta beleza fria de Maria

Para não morrerem de fome, a mãe fazia a propaganda da filha. A cada caminhão que entravam, brutas experiências entre gritos mudos. A menina de 15 anos - com corpo de mulher - ganhava seu primeiro batismo de sangue. O primeiro, de três, durante aquela árdua semana de viagem. Dramática busca de um horizonte belo, de sol a sol, com pequenas pausas em espeluncas, até a chegada e permanência na capital de Minas Gerais. Lembranças vomitadas friamente pelos restos humanos de Maria Luiza da Silva Clemêncio.

Substâncias nocivas se dispersam no ar: nicotina, benzopireno, radioativos, agrotóxicos, solventes, níquel, arsênico, amônia, formol, monóxido de carbono, acetona, naftalina. Cada baforada expelida por entre aqueles lábios, vermelhos e carnudos, parecia gritar dores cultivadas durante toda a sua vida, como verdadeiros monstros em suas cinzas memórias. A densa fumaça disfarçava as rugas, que já habitavam o seu envelhecido rosto. Mas um dos algozes - o cigarro - permanecia em sua trêmula mão. A senhora, que ainda vivia do corpo - mesmo este disforme e maltratado pelo tempo -, era uma sobrevivente, uma insistente lutando contra estatísticas muito desfavoráveis.

Maria, mais uma entre tantas. Aparenta 60 anos, mas tem 41. Prefere ser chamada de Lady Lou. Cerca de 1,80m, 90kg. O forte cheiro de álcool, as garrafas espalhadas, as seringas no lixo e a cama bagunçada contrastam com o Cristo - crucificado - dependurado na porta do seu quarto. Mora num glamouroso bairro, situado na zona sul de Belo Horizonte, mesmo seu lar parecendo um chiqueiro. Celulite, calcinhas fétidas, varizes, preservativos, vestido rasgado, excrementos no chão, heroína. A visão que se tem da sala de sua casa é mais “aconchegante”, menos infernal.

Nasceu no dia 26 de setembro de 1965, na cidade de Caruaru, interior de Pernambuco. Morava com o seu pai Antônio Clemêncio da Silva e a mãe Januária das Dores Pereira, além dos 11 irmãos. Quando Maria tinha 6 anos, seu pai decidira sair de casa para tentar a sorte na cidade grande. O destino era São Paulo, de onde nunca mais voltou. Ao completar 15 anos, a já menina-mulher, juntamente com a mãe, deixa Caruaru e os irmãos aos cuidados da avó, Dona Celestina. Ao invés de seguirem os passos do pai, decidem ganhar a vida em BH - pelo medo do que poderiam descobrir acerca do paradeiro de Antônio. Dez anos depois, a dura realidade bate à porta: o pai fora preso por roubo, estupro e assassinato, sendo estuprado e assassinado na cela três dias após sua retenção.

Aquele não era o presente que a doce menina sonhava para si. O resto de esperança desabou quando descobriu, após 11 anos, que o desejo cego pelo poder entre os monstros de concreto era, na prática, o motivo de toda a sua desgraça. Havia largado uma vida miserável no nordeste e achara uma ainda mais cruel em terras mineiras. Nesse tempo, sua mãe decidira voltar para Caruaru, ao saber o que ocorrera ao marido.

Seguiu a sua sina na cidade grande. Assassinara todos os vestígios daquela doce menina chamada Maria Luiza. Hoje, perdida em desilusões e fantasias, entre “trepadas” casuais e ameaças constantes de morte, carrega sozinha o peso - que também é nosso - de ter trilhado um caminho tortuoso e sem perspectivas. O seu ideário de vida resume-se na poesia do também nordestino Djavan: “no pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”.


29 de dezembro de 2006

04. Poética ao marinheiro chinês

Este espantoso mar de mistérios e possibilidades. Este sereno olhar, profundo, oceânico, que, na profundidade do tão negro, lutas, navegas, mas só resta o tentador desespero de afogar-se. Não de primeira, não de segunda. De muitas viagens, marinheiro és. E pra quem segues mentindo, oh marinheiro, se, quando a vêem, brilham e sorriem os cegos olhos, denunciando, em firme terra, a todos ao redor, o quão espantoso há no querer? Não de primeira, não de segunda. De muitas viagens, marinheiro és. Agita-se o mar bravio, em alvas cavidades. Abre-se o largo horizonte, na face angelical, no delírio da beleza jamais desbravada. Cuidado! É sorriso largo, lindo, traiçoeiro, que engole marinheiro.

17 de dezembro de 2006

03. Carta a uma amiga supostamente puritana

Preciso ser mais mal-educado, preciso ser mais desbocado, preciso de mais deboche, mais escraxo. Preciso o ser? Não ter celular, cagar na mesa daquele restaurante chique, vomitar nos pés daquele reitor escroto. Impreciso, sou, e mero aspirante a idiota.

Andar por ai, cagado, me cagando para o que pensam ou dizem as línguas mortas, sem utilidade alguma.

Mas preciso mais de você, preciso não desejar tanto você. Preciso tudo aquilo que não seja preciso, mas também preciso além. Preciso roubar um beijo daquela mocinha ruiva, cortejar a mulher negra, jurar e prometer o mundo para aquela jovem caucasiana. Não nessa precisa ordem.

Preciso sentir a língua, vibrante como quem quer tudo e nada, sugando desavergonhadamente o meu sujeito deus entre as pernas, sem identidade alguma ou contendo toda a Babel em si.

Precisamente, preciso tudo nos mínimos detalhes e, precisando a vida tão milimetricamente, andei bêbado e perdido. Cagando pela boca e falando merdas pelo beco do cu. Agora preciso de ti, Bebel. Agora preciso viver com segurança, preciso... Vida previsível.

28 de novembro de 2006

02. Em comum acordo

É evidente que aquela estrutura óssea, coberta por uma pele alva, magra e ferida, ao encontrar-se com a fina, fria e curva haste de metal, desencadearia um sangrento processo. Fibras, molas, nervos, alavancas e vazos trabalhariam sistemicamente, culminando em uma cadeia de explosões químicas. Aquele pó branco, disforme, tinha o mesmo impacto da cápsula de metal contundente e, passando pela curta estrutura redonda de ferro, entrando suavemente pelas narinas ou arrombando a fronte, em uma velocidade de 700km por hora, violentamente os levariam a lona. É evidente que, para ambos, o morrer era uma saída mais palpável e menos dolorosa.

13 de novembro de 2006

0I. A vila e os viralatas

Cinco dias após um súbito desejo ou necessidade de não mais viver. Talvez, quando ela estivesse lendo aquele texto inaugural, ele não estaria vivo para contar aquelas histórias engraçadas ou ouvir velhas e infindas reclamações. Há muito, o papel deveria ter sido invertido: era ele que, agora, precisava se descontrair com historinhas idiotas e desabafar suas chorumelas. Imperou-se o egoísmo, sem o perceberem. Ela, provavelmente, se encheria de culpa e veria o quanto aquele babaca era, de fato, um babaca especial em sua vida. Mas a vida é mesmo assim, dói... E é pelo viés do dedo, em riste, pronto para ser penetrado fronte a dentro, sem pudor, por entranhas apertadas, contundindo tecidos, arrancando carne, jorrando sangue, expondo o supostamente não-ético, o pecado, a ausência de luz, a falta de deus, assim como se faz objetiva a moral cristã e seus seguidores: um dedo, bem duro, com unhas mal cortadas e sujíssimas, mas sempre pronto para atacar, penetrar obsessivamente, sem nenhum sinal de pudor, piedade ou compaixão, típicos dos DOGmas.

Eu?

Nilmar Barcelos
Belo Horizonte/Salvador, MG/SSa, Brazil
Mais uma convenção, uma mentira contada, uma piada de mal gosto. OBSCENO. Um erro de roteiro, uma torta reta, uma rota morta, uma grande farsa.
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