Ps - em parceiria com Casal
Como um porco na hora do abate, inspirado
portanto, ao dejetar suor, lágrimas, escarro, gorfo, vômito, víceras e escrementos, por favor, entenda...
6 de novembro de 2009
61. Razão
Ps - em parceiria com Casal
4 de novembro de 2009
58. O onírico som da GG
29 de outubro de 2009
57. Telefônica
Assim que eu comprar a terra
Em sua liga que me liga, moça
Tornando-te, à distância, a mim ligada
25 de outubro de 2009
13 de outubro de 2009
55. Gabi
Gabi à rodar
Num acolá Gabi
Querendo Gabi
Me querendo lá
7 de outubro de 2009
54. Vivi
Seu exílio é comigo
Subversivo, o é aqui
1 de setembro de 2009
53. Suruma
Em difuso horário de pico bom baiano se pica
6 de maio de 2009
5 de maio de 2009
5I. Cinco de maio (Quês de Thiago)
28 de abril de 2009
50. Entrega
Cansada, suada, cheirada
Dançada, no dengo, colada
Embalada, nua, calada
Pele com pele, crua alvorada
Amanhecida, em mim embebida
Assim, assado, aceita
19 de abril de 2009
3 de abril de 2009
2 de abril de 2009
47. A chegada do circo
31 de março de 2009
46. Memórias da chuva
Dar-te-ei um beijo, em teu queixo, molhado, esquentando a chuva, raiando sol sereno, secando o mar bravio - pra que não descompasses o nado, pra que não percas o passo, pra que não morras na praia, pra que não troques os fatos, pra que não arruines a pose, pra que não mudes os rastros, pra que continues morena, pra que não a roam os ratos.
25 de março de 2009
45. Dois sentidos
22 de março de 2009
44. Moleton
31 de janeiro de 2009
43. Anônimos falares
Na mini-meia-arena, três fileiras centrais, cheias. Nas laterais, uma defronte a outra, seis sujeitos numa e noutra duas mulheres, eu e, na bancada abaixo, a moça. Ao som de trilha francesa, dramática, o frisson provocado pela beleza obscura de Samira Ávila, intérprete - branca, magra, esguia, de seios quase medianos, olhar fundo, nariz afilado e longo, compridos cabelos negros, lisos e com franja – de Poliana, Brisa, Luíza ou qualquer que seja a personificação do desespero feminino. Garrafas acumuladas ao pé do televisor, ao lado de duas camas vazias, num quarto gélido. Noites em claro, entre garrafadas de água, imersa num tédio tamanho. Esse, impossível de ser quebrado, nem mesmo pelas simulações de luta marcial (chutes, socos e histéricos gritos, que não despertaram o mesmo efeito que a gargalhada unívoca e natural da recepcionista) do homem de trinta e poucos anos, bêbado, que acabara de chegar declamando sua madrugada na orgia. Ele, o desespero existencial masculino. A dureza de mais um dia por vir. A luz, chapada, arrombando a retina, em mais uma assustadora manhã que raia para o casal, que há muito já são dois. Sós.
É sobre o drama existencial humano que versa Fala comigo. Sobre o sofrimento que, embora tamanho, é sempre submisso à escolha individual (mesmo quando não vemos saídas ainda podemos escolher o suicídio, diria Peter Berger). É sobre aquela chuva fina que, no movimento dos corpos, em dia frio e cinza, só serve ao cortante incômodo. É sobre o amor bruto, cachorro. É sobre forma e conteúdo, significado e significante, tatuagem, literatura, Gustav Klimt. É sobre gente, demasiado humano, que ainda sim pode e acha plausível dizer sim a um pedido amistoso de dança com o inimigo em meio à guerra declarada. É sobre gente com brio, que sabe dizer não e que vê na fuga a chance humana de uma nova vida – mesmo que uma na qual o anseio maior seja o envelhecimento sem perceber-se, sem espelho, sem o conteste do outro, sem a linguagem do tempo.
Não conhecia, absolutamente, nada da franco-sensualidade musical de Yann Tiersen, Carla Bruni, Mireille Mathieu ou Claude Dubois. Pouco conhecia da crueza do poeta estadunidense Walt Whitman ou da melancolia de Tennessee Williams. Eu não conhecia os riscos, a subjetividade, a geometria, o cumprimento de Klimt, muito menos sua extensão reproduzida, fragmentada, no tecido do braço esquerdo de Ávila. Tampouco a leveza da minha recepcionista-protagonista (idade, crenças, preferências, sonhos, nada, nem mesmo função e nome, ausentes na ficha técnica da dramaturgia). Mas foi seu olhar, tal qual a fuga daquela louca, agora Caroline Turner, para um local ermo e à vomitar em literatos mortos, o estanque daquilo que, em mim, também, tudo destrói: o tempo. “De outro anônimo, obrigado, anônima. Deu-me força para, como tantas Polianas, Brisas e Luízas, recomeçar do zero”, era o que eu pensava, enquanto, na porta do galpão, observando a saída de felizes casais, projetava uma nova caminhada, de quinze minutos, mais cinco cigarros, pr'um novo bar.
Fonte - http://falacomigodocecomoachuva.blogspot.com/2009/01/ele-e-um-rapaz-que-escreve-super-bem-e.html
17 de dezembro de 2008
42. Fôlego (ou Suspiros de Maria)
14 de dezembro de 2008
4I. Acaso
20 de novembro de 2008
40. Liberdade
Liberdade, expressão mais amarela do Brasil
Multicolor e universal aspiração, Liberdade
18 de novembro de 2008
15 de novembro de 2008
37. Busca-vida
Vim, na cadência ao descompasso
Com metáfora de cem métricas
Erigir minha ciudad letrada
Sem lirismo, quiçá propostas
Vim, porque já me doía a vida
Como armada, ponteira, pisão
Em tal turva e só capoeira
Sem poemas, sem apostas
Sem perguntas ou respostas
Como se vai o que nada tem a perder
Fui, voltei e, ainda, cá estamos
Sem poemas ou novos projetos
Com sorrisos e um raro afeto
Sedentos da curva de um beijo aberto
Ambos, cedendo à permanência do passado
5 de novembro de 2008
18 de outubro de 2008
35. Espontaneidade
Como primavera em refugo
Como sol em crepúsculo
Como luar em absurdo
Como fogo em desuso
Como Hiroshima em refluxo
Como quimeras de demiurgo
Como todo nada e o nada tudo
Vento em subterfúgio
Tempo em solstício
Vômito em regurgito
Tem que vir, atoa
5 de outubro de 2008
3 de outubro de 2008
1 de setembro de 2008
14 de agosto de 2008
30. Decrescentes acentuadas doenças
Tricotilófago
Sonâmbulo
Míope
Daltônico
Astigmático
Agnóstico
Alérgico
t
l
e
t
i
c
a
n
o
12 de agosto de 2008
29. Ao Japão, meu improviso
Fios negros, escorridos
Alva pele, magenta
Nos lábios, alarido
De um ocidente por nome
E n'outro acaso Japão
Atravessando meu ego
Meu oco, meu ão
Que brinca, atiça
Me vertigineia
Causa medos, delírios
Sonhos, tonturas
Me lambe, me cospe
Propõe travessuras
E provoca, e embaraça
Tal abismo: Kimura
2 de agosto de 2008
11 de julho de 2008
27. Sobre Chagas
Pau, torto, de fumo, boêmio, crioulo, abastado, mesquinho, que ao mundo me pôs, me expôs, como carne de sua própria carne e miscigenado sangue do seu próprio álcool, duma sacanagem, uma foda, que ninguém pediu ou agradeceu por ser lançado à merda. Puro escárnio, trajando similaridades físicas, disparidades estéticas - pregas vocais, sonoridades nasais, grossos lábios, enunciando afinadamente, aos pares, o quão familiar ressoa o cantar e o mentir. Que à justiça dos homens revelou-se tão hipócrita, sentimental, sensível, gélido.
Mais velho, tragando fumo e cana guela abaixo, trago, à pele, peça de um acaso tragicômico, múltiplos sinais, dia-a-dia, como os seus e, num confuso sentimento de ódio e estranhamento, Chagas como nome último. Levá-los-ei, inevitavelmente, até o dia do nada, como o nada tão expressivo desse tão díspar e tão análogo o é a mim. Queria Lima. Me agrada Barcelos. O outro eu renego, mesmo que possua, embora, se tiro o agá e acrescento um cifrão, linguisticamente convive mudo e sujeito ao meu simbólico desprezo.
26 de março de 2008
26. Cronologia
Entre nuvens de concreto e prédios de algodão
Surge bela, emergente, rajante gema fugidia
D'um cinza p'rum crepúsculo, amarelo n'olho piscar
Jaz acima, soberana, de todo branca, pescoço à torcer
Pára tempo, para a vida, pára minha cronologia
19 de fevereiro de 2008
25. Despeça-se
Despeça-se e torno solidão de ilha
Gota-a-gota, feitio de lágrimas
Colosso desterro em meio ao mar
Submersa, dispersa, afundada em mim
Despeça-se e torno a me tornar eu
Lírico destilado, ébrio metaforizado
Condensado vapor barato, líquido
Sólido e frio, gelo chamado solidão
3 de dezembro de 2007
24. Café e cigarros
24 de novembro de 2007
23. A casa de Emília
No acaso do sol à se pôr
No longo exílio ou em casa
Neste Porto desta Barra
Sem descaso, casa
Te dou Brahma e batata frita
Amor, vela, fogo e brasa
Me torno seu entre, então
Sincretismo de guitarra, voz e acordeon
Penetrando tal olhar musgo-verde
Num blues à azulejar tal solidão
Na meca, igreja ou candomblé de terreiro
Uma ponte para o seu desfilar, seu saveiro
De Salvador, no nordeste, a BH ou Bangladesh
Diversão gratuita e um pouco de chão
Num sítio ermo, no desterro
Casa, comida e café fresco
Uma vida pintada à quatro mãos
Na espera da singela minguante lua magrela
Lindo ocaso, vermelho-amarelo, sob os ecos do ão
Se casa Emília comigo, casa
Casa, pão de queijo e goiabada cascão
Se casa Emília comigo, asas
Como um bocejo, sem a menor pretensão
Num céu dado, em aquarelas e livre-criação
Comida, estrelas e versos num papel de pão
Numa entrega, de repente, em embolada tradução
Com banheiro, cozinha, quarto e sala-de-recepção
E uma banda de jazz na tela de tal improvisação
Na sacada onírica do som, luz, câmera e ação
Na sempre mesma casa, colorida pelos olhos de Emília
19 de novembro de 2007
22. Boneca do Candeal
19 de outubro de 2007
2I. No reflexo das águas
7 de outubro de 2007
20. Tu mais eu
Me fita, me cega, não deixa surgir amanhecer
E é tão singelo, na escuridão, tocar teus seios nus
E sentir a forma morena, arrepiada, exalando jasmim
Há dias que a noite insiste me amanhecer
Mas, preso aos teus olhos, abraço a lua, não deixo raiar o sol
E é tão sutil o teu gosto ressoando em meus ouvidos
E este cheiro de voz lingual azulejando meu verde pensar
Dias que me vejo tu. Noites que me sinto nó
São dias estas noites. Dias que me vejo teu
Mas é tão duro, pela luz de um olhar ateu, beijar teus lábios crus
Como flor murcha, no desencantar, espalhando mal me quer
Curioso, como uma estrela se assustando à própria explosão
Espantoso, tanto quanto quando tu mais eu não formamos nós
Dias que me vejo eu. Noites que me sinto pó
São noites estes dias. Dias que me tenho dó
1 de outubro de 2007
I9. Marco y Alicia
Em meu lábio o queixo teu
Narciso olhar devorado
Entre cinzas, fumaçal
Subindo, como serpente,
A enrolarmo-nos tal destino cego
Em nucas ouriçadas, pintadas
Unhas em miscelânea de tons
Pouco-a-pouco a formar-se tal
Tela de um quadro em nós
Neste querer ter cru, humano,
Do nosso Almodóvar espasmar
Dias que o meu coração palpita gritos em formas de pensamentos teus
Dias que o teu ouvido sem deus rumina suspiros de desejos meus
15 de setembro de 2007
I8. Avoada
No horizonte da janela que te prende no quarto
Balança, menina, e, se cai,
Levanta, pois existe azul depois do chumbo
Balança, menina, balança
Nesta ponte, da cabeça, que te leva ao mundo
Balança, menina, e, se cai,
Levanta, depois do chumbo ainda existe azul
11 de setembro de 2007
I7. Arranha-suelos wtc
Aquilo que me entorpece de alegria
Seu sentimento é ruína
Espelhado em vitrines coloridas
Seu paraíso (público) sou eu
Um shopping à céu aberto
Meu inferno (privado) é você
Incertas certezas construídas pra mim
Ps - um mês de Bahia e seis anos de Bin Laden.
10 de setembro de 2007
I6. Arranha-cielos wtc
Espelhado em vitrines coloridas
De arranha-céus e solidão
Um shopping a aberto céu
Feito de incertas certezas
Construídas para você
31 de agosto de 2007
I5. Ritual
20 de agosto de 2007
I4. Cadência ao descom(passo)
Mansão, casabandonada
De ladeiras em asfalto
E praias enchuvaradas
Vivo em descom(passo)
Na cadência das cinzas de agosto
Na Bahia que não minha
De igrejas, santos e terreiros
Em trêmulas notas de um pandeiro
Do triste berimbau a batucar
Um vai-e-vem de morena pensar
Só, acompanhado ao sabor do acaso
15 de agosto de 2007
I3. Penso no que as vezes penso que penso
que o mundo ta mal etecetera e tal
As vezes penso que estou em Berlim,
que não ta ruim, meu senhor do Bonfim
As vezes penso que meu coração
quer escapulir pra dentro de ti
As vezes penso que se vomitar
pra aliviar o estomago ruim
So tenho a plena certeza
que, como aquele ser disforme,
sou tambem este nada imerso em mim
FIM.
Ps - Salvador, Bahia. Na casa de umas japas, postando num notebook com teclado maluco.
27 de julho de 2007
I2. Urgência
Era penumbra, era terra, era escuridão.
Tragava todas as sensações do mundo em mim,
Fumando um universo por vez.
Nada era como aquele ópio-lento-brusco beijo,
Embebido de sensações inebriantes.
Penetrante olhar cegava-me em faíscas.
Doce sorriso seduzia-me como cachaça.
Em tudo ela era tudo,
Numa urgência louca de senti-la outra vez.
24 de julho de 2007
II. Pudor - sentimento de pejo e decência; honestidade.
Gota-a-gota, salgada e cristalina, de amargura e arrependimento se turvava minha psiqué. Por uma questão de (des)pudor, moral e/ou covardia eu o permitia tocar desavergonhadamente meu nariz, minha boca, o biquinho do seio e o que mais quisesse. Jamais imaginaria que aquele homem alvo, de olhos verdes, cabelos sedosos e negros, na faixa dos 30, com o qual namorei virtualmente por dois meses, me mandava emoticons tão calorosos com a única coisa que restava de sua semi-extensão braçal: um protótipo de indicador. Vomitei, me arrependi. Um brinde a internet.
21 de julho de 2007
I0. Encontro
17 de julho de 2007
09. Grito mudo
um grito que,
Passo na onda da vida, que leva meu rumo pro incerto.
de tão forte,
chega a emudecer-me.
27 de junho de 2007
08. Nós
- Tem eu, tem você. Pra que mais, se somos nós? - Responde o rapaz, olhos nos olhos, perdidamente encontrado.
11 de abril de 2007
07. Lírico improviso
Eternidades sonhadas. O tempo parecia condensar dias em horas - sentíamos tudo como em segundos. Lá fora, fora do mundo onde estávamos, parecia carnaval. Toda aquela agitação, mesas verdes ou amarelas, sorrisos constantes, filas quilométricas pro alívio biológico, cerveja, pessoas, euforia, Ben Jor. Mesas verdes, talvez amarelas – ou alguma cor que eu não sabia o nome, mas que parecia estar entre as duas. Talvez verde, limão.
Onde estávamos era uma intensa calmaria de destruir qualquer quarteirão, qualquer França, Espanha, Brasil ou Japão. Na esquina, no escuro, no caos da serenidade que nos encontrávamos, corpo no corpo, boca na boca, língua na língua, dente com dente, cabelos e a falta, suor, calor e uma suave mão, que explorava as cavidades mais abissais do gozo.
Beijo, gostoso, demorado, lento com alguns raros movimentos, brusco. Buscando língua, saliva e mordidas, com tesão, com mãos, pureza em sutis safadezas, com verdade, com malandragem, com gente que gosta de gente. Eu, ela. O meio era beijo, nem lá nem cá – tudo era motivo de travessia.
1 de março de 2007
06. A fábula do velho que cultivava formigueiros
11 de fevereiro de 2007
05. A morta beleza fria de Maria
Substâncias nocivas se dispersam no ar: nicotina, benzopireno, radioativos, agrotóxicos, solventes, níquel, arsênico, amônia, formol, monóxido de carbono, acetona, naftalina. Cada baforada expelida por entre aqueles lábios, vermelhos e carnudos, parecia gritar dores cultivadas durante toda a sua vida, como verdadeiros monstros em suas cinzas memórias. A densa fumaça disfarçava as rugas, que já habitavam o seu envelhecido rosto. Mas um dos algozes - o cigarro - permanecia em sua trêmula mão. A senhora, que ainda vivia do corpo - mesmo este disforme e maltratado pelo tempo -, era uma sobrevivente, uma insistente lutando contra estatísticas muito desfavoráveis.
Maria, mais uma entre tantas. Aparenta 60 anos, mas tem 41. Prefere ser chamada de Lady Lou. Cerca de 1,80m, 90kg. O forte cheiro de álcool, as garrafas espalhadas, as seringas no lixo e a cama bagunçada contrastam com o Cristo - crucificado - dependurado na porta do seu quarto. Mora num glamouroso bairro, situado na zona sul de Belo Horizonte, mesmo seu lar parecendo um chiqueiro. Celulite, calcinhas fétidas, varizes, preservativos, vestido rasgado, excrementos no chão, heroína. A visão que se tem da sala de sua casa é mais “aconchegante”, menos infernal.
Nasceu no dia 26 de setembro de 1965, na cidade de Caruaru, interior de Pernambuco. Morava com o seu pai Antônio Clemêncio da Silva e a mãe Januária das Dores Pereira, além dos 11 irmãos. Quando Maria tinha 6 anos, seu pai decidira sair de casa para tentar a sorte na cidade grande. O destino era São Paulo, de onde nunca mais voltou. Ao completar 15 anos, a já menina-mulher, juntamente com a mãe, deixa Caruaru e os irmãos aos cuidados da avó, Dona Celestina. Ao invés de seguirem os passos do pai, decidem ganhar a vida em BH - pelo medo do que poderiam descobrir acerca do paradeiro de Antônio. Dez anos depois, a dura realidade bate à porta: o pai fora preso por roubo, estupro e assassinato, sendo estuprado e assassinado na cela três dias após sua retenção.
Aquele não era o presente que a doce menina sonhava para si. O resto de esperança desabou quando descobriu, após 11 anos, que o desejo cego pelo poder entre os monstros de concreto era, na prática, o motivo de toda a sua desgraça. Havia largado uma vida miserável no nordeste e achara uma ainda mais cruel em terras mineiras. Nesse tempo, sua mãe decidira voltar para Caruaru, ao saber o que ocorrera ao marido.
Seguiu a sua sina na cidade grande. Assassinara todos os vestígios daquela doce menina chamada Maria Luiza. Hoje, perdida em desilusões e fantasias, entre “trepadas” casuais e ameaças constantes de morte, carrega sozinha o peso - que também é nosso - de ter trilhado um caminho tortuoso e sem perspectivas. O seu ideário de vida resume-se na poesia do também nordestino Djavan: “no pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”.
29 de dezembro de 2006
04. Poética ao marinheiro chinês
Este espantoso mar de mistérios e possibilidades. Este sereno olhar, profundo, oceânico, que, na profundidade do tão negro, lutas, navegas, mas só resta o tentador desespero de afogar-se. Não de primeira, não de segunda. De muitas viagens, marinheiro és. E pra quem segues mentindo, oh marinheiro, se, quando a vêem, brilham e sorriem os cegos olhos, denunciando, em firme terra, a todos ao redor, o quão espantoso há no querer? Não de primeira, não de segunda. De muitas viagens, marinheiro és. Agita-se o mar bravio, em alvas cavidades. Abre-se o largo horizonte, na face angelical, no delírio da beleza jamais desbravada. Cuidado! É sorriso largo, lindo, traiçoeiro, que engole marinheiro.
17 de dezembro de 2006
03. Carta a uma amiga supostamente puritana
Andar por ai, cagado, me cagando para o que pensam ou dizem as línguas mortas, sem utilidade alguma.
Mas preciso mais de você, preciso não desejar tanto você. Preciso tudo aquilo que não seja preciso, mas também preciso além. Preciso roubar um beijo daquela mocinha ruiva, cortejar a mulher negra, jurar e prometer o mundo para aquela jovem caucasiana. Não nessa precisa ordem.
Preciso sentir a língua, vibrante como quem quer tudo e nada, sugando desavergonhadamente o meu sujeito deus entre as pernas, sem identidade alguma ou contendo toda a Babel em si.
Precisamente, preciso tudo nos mínimos detalhes e, precisando a vida tão milimetricamente, andei bêbado e perdido. Cagando pela boca e falando merdas pelo beco do cu. Agora preciso de ti, Bebel. Agora preciso viver com segurança, preciso... Vida previsível.
28 de novembro de 2006
02. Em comum acordo
13 de novembro de 2006
0I. A vila e os viralatas
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- Nilmar Barcelos
- Belo Horizonte/Salvador, MG/SSa, Brazil
- Mais uma convenção, uma mentira contada, uma piada de mal gosto. OBSCENO. Um erro de roteiro, uma torta reta, uma rota morta, uma grande farsa.